O impiedoso escultor

A cada ano que passa, as cruéis marcas do tempo vão esculpindo e modificando o nosso corpo a ponto de enxergarmos um estranho diante do espelho. Miramos mais de perto e, intrigados, perguntamos: quem é você? O estranho prontamente responde: vê se te enxerga! No corre-corre, nem percebemos que a cada dia o impiedoso escultor trabalha sem descanso e sem pressa, até que num belo ou horrível dia descobrimos a maldade que ele nos fez. Então buscamos as fotografias de antigamente, e numa mistura de perturbação e nostalgia, surge outra pergunta boba: onde foram parar todos esses anos? A resposta está na cara, ficaram nas marcas que nós também ajudamos a esculpir.

É difícil aceitar, mas muitas rugas do nosso rosto evidenciam as rusgas do passado – desentendimentos com os outros e conosco mesmos. Algo parecido com o fato de certas características físicas que surgem naturalmente e denunciam o avanço da idade, são aceleradas por erros cometidos no passado. Como, por exemplo, uma alimentação inadequada, que altera a textura da pele, exposição exagerada ao sol, que provoca manchas e até mesmo câncer, estresse, tabagismo e vida desregrada, que agravam as rugas. Ou seja, dependendo dos hábitos, podemos dar uma mãozinha ao insensível escultor. Isso é certo, não tem como evitar os dissabores da vida, mas muita coisa errada que aconteceu em 2019 tem um grande culpado: este cara estranho que eu enxergo no espelho.

Não existe uma máquina do tempo para voltar e consertar os erros do passado. Mas existe um presente e um futuro que dependem de atitudes pessoais firmes e corajosas. As pessoas lá fora buscam em si mesmas a força para mudanças, só que são subterfúgios que tentam retardar o serviço do escultor, igual ao botox, cirurgia plástica, cremes… Pensamento positivo, força de vontade, autoajuda e todos os conselhos para um ano novo próspero e feliz têm eficácia enganosa porque são soluções momentâneas com tempo de validade.

Seria, portanto, um 2020 já velho e enrugado se não fosse aquilo que Paulo confessa: “Assim como Cristo foi ressuscitado pelo poder glorioso do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova” (Romanos 6.4). Esta vida nova não altera o processo das marcas do tempo e da morte física, consequências do pecado, mas já provoca os efeitos da ressurreição de Cristo nesta vida de começo e fim. Ou, como insiste o apóstolo, “não deixem que o pecado domine o corpo mortal de vocês […] e também não entreguem nenhuma parte do corpo de vocês ao pecado” (6.12,13). Mas então, onde buscar a força para esse milagroso rejuvenescimento? É simples, na união com Cristo, que oferece poder para “uma ressurreição igual à dele” (6.5).

E assim, nossa nova vida surge nas alturas, parecido com a história da menina Trinidad. No último dia 8 de dezembro, uma criança de pais chilenos nasceu dentro de um avião que sobrevoava o Rio Grande do Sul. A aeronave seguia do Rio de Janeiro para o Chile e precisou fazer um pouso de emergência em Porto Alegre logo após o parto. Por nascer no espaço aéreo do Brasil, a pequena chilena tem os direitos da cidadania brasileira. Isso lembra o que Paulo escreve na carta aos filipenses, que devido ao nosso nascimento no reino celestial, em união com Cristo “somos cidadãos do céu” (3.20). E diz mais: Cristo “transformará o nosso corpo fraco e mortal e fará com que fique igual ao seu próprio corpo glorioso”.

No final da história, o impiedoso escultor que também tem seus dias contatos, será destituído do seu desprezível poder, e no lugar dele o bondoso Jesus usará o seu glorioso domínio, e trará “para perto de si a Igreja em toda a sua beleza, pura e perfeita, sem manchas, ou rugas, ou qualquer outro defeito” (Ef 5.27). E, com isso, surge o milagre: a cada ano que passa, não envelhecemos, mas ficamos rejuvenescidos e bonitos.

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