A Bíblia nesse formato ainda é Bíblia?

Quando se trata de abrir e ler a Bíblia, hoje pessoas que não nasceram nesta era digital (e muitos de nós, quando criança, só conhecíamos o rádio e olha lá), afirmam que também preferem a Bíblia no celular. Sabe por quê? Porque num celular você pode ter várias traduções da Bíblia. E o celular é pequeno, leve, fácil de levar.

Algum tempo atrás, um fato interessante virou notícia: a nova embaixadora dos Estados Unidos na Suíça prestou juramento sobre um dispositivo digital chamado Kindle. Acontece que não havia uma Bíblia impressa à mão. Como alguém tinha o texto da Bíblia num aparelho Kindle, a embaixadora pôs a mão sobre esse aparelho. Mas – cabe a pergunta – ela fez o juramento com a mão sobre uma “Bíblia”? Ou será que a Bíblia é sempre – e somente – um livro impresso?

Antes de ser impressa (a partir de 1455), a Bíblia existia apenas em cópias feitas à mão, sobre papiro, pergaminho e papel. O livro podia ter o formato de um rolo ou de um caderno. A Bíblia impressa sempre teve o formato de um caderno, ou seja, sempre foi do jeito que a conhecemos como livro nos dias de hoje. Mas, desde 1980, a Bíblia existe também em formato digital. Esta é a Bíblia que está no celular, no computador, no Ipad, no Kindle e outros apetrechos de leitura. Mas continua a pergunta: Esta Bíblia em formato digital ainda é a Bíblia? De certa forma, levantar esta questão é o mesmo que perguntar: os textos bíblicos que tenho memorizados são Bíblia?

Este é um tema interessante e desafiador, especialmente nestes tempos em que já temos uma Geração Net, essa gente jovem que passa mais de vinte horas por semana na internet. Foi feita uma pesquisa entre esses jovens, e, perguntados sobre o que iriam preferir se tivessem de ficar sem TV ou sem Internet, responderam (e você já pode adivinhar a resposta) que prefeririam ficar sem a TV. E o celular, que quase não é mais telefone, permite mandar texto escrito, assistir TV e acessar a Internet.

Quando se trata de abrir e ler a Bíblia, hoje pessoas que não nasceram nesta era digital (e muitos de nós, quando criança, só conhecíamos o rádio e olha lá), afirmam que também preferem a Bíblia no celular. Sabe por quê? Porque num celular você pode ter várias traduções da Bíblia. E o celular é pequeno, leve, fácil de levar. De modo geral, você raramente sai de casa sem o celular. Além do mais, num dispositivo desses, depois que a gente se acostuma a usar, fica até mais fácil de localizar textos bíblicos.

Um dos impactos dessa assim chamada revolução digital, que permite acessar a Bíblia no celular e no computador, é que alguém pode ler a Bíblia (no ônibus, por exemplo) sem que as pessoas ao lado se deem conta de que é a Bíblia. (Não estou dizendo que isto é bom ou que é mau. Apenas é.) Isso mostra que a Bíblia pode ser lida em lugares onde normalmente não se pensaria em ler a Bíblia (numa sala de espera ou numa fila de banco ou supermercado, por exemplo). É bem possível que essa será uma leitura mais fragmentada, um pequeno trecho de cada vez. Mas, pensando bem, isso não é muito diferente da maneira como (infelizmente) a maioria das pessoas lê (ou consulta) uma Bíblia impressa.

Quanto ao computador, permite um estudo da Bíblia que, no passado, apenas pessoas com profundo conhecimento da Bíblia podiam fazer. Onde está aquele texto em que Deus é chamado de “Deus das vinganças”? Um profundo conhecedor da Bíblia saberia. Quem depende de uma concordância ou chave bíblica talvez não consiga localizar o texto (se a palavra “vinganças” não tiver sido incluída nessa lista de palavras). Mas quem pode digitar essa frase completa no computador recebe como resposta: Sl 94.1.

Se alguém me perguntasse como se dá a convivência entre a Bíblia impressa e a Bíblia digital, eu diria o seguinte: Quem precisa dar explicações é a Bíblia digital. Como ela chegou mais recentemente, precisa dizer à Bíblia impressa, que já existe há vários séculos, o que ela quer e pode fazer. E, nesse diálogo, ela poderá dizer: “Minha cara Bíblia impressa, eu não vim para tomar o seu lugar. Tudo indica que isso nunca vai acontecer. Mas eu posso chegar aonde você, Bíblia impressa, não consegue ir. E se eu chego e me apresento como Bíblia, muitas pessoas vão lembrar que a Bíblia é antes de tudo um livro de papel e, cedo ou tarde, vão perguntar: Onde consigo encontrar aquela sua ‘irmã’, a Bíblia em papel?”

Talvez você pergunte: É possível medir o quanto os meios digitais contribuem para um maior acesso à Bíblia? E a resposta é: Sim, é possível. No site do YouVersion, o medidor do número de downloads (isto é, de cópias da Bíblia que são baixadas ou instaladas em dispositivos eletrônicos) está em 624.851.376 (ou seja, quase 625 milhões). E esse número não para de aumentar. (Ao voltar agora mesmo ao site do YouVersion, vejo que o final do número já passou de “376” para “420”.)

Nesse formato digital, a Bíblia alcança pessoas e lugares que dificilmente seriam alcançados, se ela estivesse apenas no formato impresso. Hoje, em países “fechados para o evangelho”, as pessoas podem, em muitos casos, baixar a Bíblia no formato digital. Assim, até certo ponto “o contrabandista de Deus” (aquele que levava Bíblias impressas para dentro de países que não permitem a entrada da Bíblia) deixou de ser uma absoluta necessidade.

Vê-se, portanto, que a Bíblia no formato digital é, sob muitos aspectos, uma bênção. (E se, no meio do culto, alguém está com o celular na mão, não está necessariamente vendo notícias ou acessando o Facebook!)

Acesse aqui a versão impressa.

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