Uma visão impressionante!

“E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade. Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam” (Êx 24.10-11).

Você já teve uma visão impressionante de algo ou de alguma situação? Uma visão que o paralisou, o deixou extasiado, maravilhado com aquilo que você viu: uma paisagem, uma grata surpresa, uma pessoa impressionante, etc? É certo que em nossa vida existiram momentos assim. Momentos que trouxeram para a nossa vida uma experiência única e marcante.

Assim, provavelmente, sentiram-se também Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e setenta anciãos do povo de Israel, quando estavam no monte de Deus e tiveram ali a maior experiência de suas vidas. Seus olhos, mesmo que talvez tentando desviar o olhar, contemplaram a visão mais impressionante de suas vidas: “E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade” (Êx 24.10).

Que grandiosa e única experiência cheia de significado e esperança para esses homens de Deus. Estavam no alto do monte e viram a Deus, viram como que um prelúdio do céu aberto com seu esplendor e glória. Mais ainda, viram tudo isso com seus olhos e não morreram: “Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam” (Êx 24.11). No lugar do pavor da morte, estava a celebração do banquete da vida.

Mas por que Moisés e seus amigos tiveram essa visão maravilhosa e impressionante? Qual o significado dela para a esperança do povo de Israel tanto do passado como do presente?

Para podermos encontrar as respostas a essas perguntas, precisamos compreender o livro de Êxodo e a sua mensagem para o povo escolhido de Deus. Êxodo é uma joia rara do Antigo Testamento que nos apresenta a história do Deus que age em favor do seu povo com mão poderosa, libertando-o da escravidão em que se encontrava, guiando-o e sustentando-o pelo deserto e concedendo-lhe uma grande herança – uma terra boa e rica! O local que o povo poderia chamar de lar.

Êxodo também é um livro de “revelações”. A revelação de Deus para o seu povo. Deus revela, nesse livro, quem ele é e o que ele espera do seu povo. Ele revela a sua santa lei, e, através dela – que é a expressão de todo o seu ensino, Palavra e vontade – como ele deseja se relacionar com seu povo.

E no livro de Êxodo temos, talvez, aquela que seja a mais impressionante de todas as revelações de Deus, que é a sua presença. Deus se revela como aquele que deseja estar no meio do seu povo. Ele está presente na figura de Moisés, que ele levanta como profeta para anunciar a sua Palavra e realizar os seus feitos libertadores (os sinais, as pragas, a travessia do mar Vermelho, etc.), ele está presente através do cuidado, da nuvem, dos trovões no monte, e estará presente no meio do seu povo no tabernáculo. O Deus de Êxodo é um Deus presente, que está no meio do povo, que ouve o seu clamor e age para a salvação do seu povo.

Toda essa revelação de Deus nos apresenta figuras de quem é o nosso Deus, de como ele quer ser conhecido por nós: ele é o Deus da aliança, o Deus resgatador, o Deus da Salvação, o Deus que luta pelo seu povo as suas batalhas, o Deus que os sustenta com pão, carne e água quando não há provisão. Ele é o Deus da vida, e nele está a vida plena e eterna.

Toda essa revelação de Deus está diante dos olhos de Moisés e seus amigos no monte. Eles não estão vendo apenas uma imagem física de Deus, mas eles estão contemplando a plenitude da revelação de Deus. Que visão maravilhosa!

O contexto dessa visão também é significativo para a compreensão da esperança que está presente na visão impressionante que Moisés e seus companheiros estão tendo de maneira privilegiada. Deus acabara de entregar a Moisés todas as leis e preceitos que deveriam conduzir o povo no seu relacionamento com Deus. Essas leis eram divididas em três categorias: cerimonial, civil e moral. Toda vida civil, moral e religiosa do povo deveria ser agora pautada por essas leis. Deus não apenas as entrega, mas também exige obediência do seu povo. Por meio dessa lei, Deus revela o seu desejo para com esse povo: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Êx 6.7). Há, ao final da entrega de toda a lei, uma promessa maravilhosa de Deus: a terra prometida, o lar para Israel, onde Deus habitaria em seu meio.

Para que tudo fosse possível, Deus, através de seu servo Moisés, reúne o povo e faz uma aliança com ele. Esse é o contexto imediato dessa maravilhosa visão. Moisés e seus companheiros, no monte, adoram a Deus. Depois Moisés lê diante do povo “todas as palavras do SENHOR e todos os estatutos” (v.3a). Essas “Leis e Preceitos” referem-se ao livro da aliança. Há aqui um aspecto contratual que é feito entre Deus e o povo. Esse contrato consistia na leitura pública dos termos por parte do “Senhor” e a aceitação por parte daqueles que eram seus “servos”. É nesse sentido que compreendemos a resposta de Israel: “Tudo o que falou o Senhor, faremos” (v.3b).

Entretanto, existe um aspecto único nessa aliança. Somente Deus tem a capacidade para cumpri-la. O povo não será fiel à sua promessa de “fazer tudo o que o Senhor falou”. Suas palavras e promessas, manchadas pela fraqueza do pecado, encontrarão sua contradição em Êxodo 32, quando o povo, impaciente com a demora de Moisés no monte, pede para Arão construir o bezerro de ouro e o adora. Essa é a realidade do coração humano. Desde a queda em pecado, quando perdeu o privilégio de viver no Éden e na presença de Deus, o ser humano não consegue mais caminhar de volta para essa presença. É necessário que Deus intervenha na história para que o ser humano seja trazido de volta para casa, para a presença de Deus (Hb 9.18-22). Deus, portanto, é aquele que faz a aliança e é o único que tem condições de cumpri-la fielmente.

Moisés sela a aliança através de holocaustos e sacrifícios pacíficos, por meio do sangue dos animais que é aspergido sobre as doze colunas e sobre o povo. É significativo que esta aliança seja firmada com sangue. Ela tem um aspecto que liga o povo tanto às promessas do passado como às do futuro. Em Gênesis 17.7, vemos Deus fazendo aliança com Abraão: “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência”. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó, que fez aliança com os pais no passado, para ser o seu Deus e o Deus de sua descendência é o mesmo que faz a aliança com o “Filho” no presente, e o faz do mesmo modo, para mostrar que é o mesmo Deus.

Esta aliança também se conecta com as promessas futuras de salvação e vida eterna por meio do Messias. Moisés diz: “Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras” (v.8). Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que instituiu a santa ceia, usou as mesmas palavras para selar a maior aliança com toda a humanidade: “porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para a remissão de pecados” (Mt 26.28).

Entretanto, existe uma significativa diferença entre essas alianças. As alianças feitas no passado, com Abraão, Isaque, Jacó e o povo de Israel, no contexto de Êxodo, foram realizadas através de sangue de animais. Eram provisórias e sombras de uma aliança maior. A que nosso Senhor Jesus Cristo realizou, a nova aliança, foi feita através do seu próprio sangue derramado na cruz. Ela é única, não necessitando ser repetida novamente. E nela está a remoção de toda a imundícia do pecado. Por meio dessa aliança, que Cristo firmou com seu precioso sangue, todo o “véu” que separava o povo de se aproximar da presença de Deus foi removido, e, agora, o povo pode estar na presença de Deus novamente, sem temer a morte, porque, no sangue de Cristo, mesmo que a morte estivesse presente por breve momento, ele oferece a vida (Hb 13.10-15).

Esse é o resultado da aliança que Deus faz com seu povo. Esta é a esperança que está presente nessa aliança. Por isso, Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e os setenta anciãos de Israel puderam estar no alto daquele monte, ter aquela visão impressionante e não morrer. Mesmo que a Palavra de Deus ensine que “nenhum pecador pode ver a Deus e continuar vivo” (Êx 33.20), eles puderam ver a Deus e a glória do céu e continuar vivos. Por quê? Porque o que os aproximava de Deus não eram seus méritos ou obras, mas o sangue da aliança. E nesse sangue está a vida! Eles viram com seus próprios olhos o Deus da vida.

Essa esperança que os olhos desses servos contemplaram no passado, agora pode ser contemplada pelo povo no presente, pela sua igreja. E de fato a podemos ver. Essa esperança está presente na Palavra que é proclamada, no batismo que oferece a nova vida e na comunhão da santa ceia. Moisés e seus amigos não apenas viram a Deus, mas tiveram o privilégio de uma comunhão com ele: “Eles comeram, e beberam” (v.11).

A cada semana somos convidados para uma comunhão semelhante, onde nossos olhos e ouvidos também contemplam a presença gloriosa de Deus e do céu. Nessa comunhão, o que os nossos olhos veem? Eles veem o Deus da vida, que vem ao encontro do seu povo por meio da Palavra e dos sacramentos e oferece a vida, a nova aliança, que promete e dá perdão dos pecados, vida e salvação. Por aquele instante vemos também o céu aberto com toda a sua glória preparado para aqueles que amam a Deus.

Temos, nesse momento, assim como Moisés e os líderes do povo de Israel, renovada em nosso coração a esperança de ver Deus face a face. Esperança essa que o culto a Deus nos comunica com riqueza. Esperança como o personagem bíblico Jó tinha em seu coração: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros” (Jó 19.25-27).

O apóstolo João também proclama semelhante esperança: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 31.-2).

O apóstolo Paulo, unido nessa mesma esperança escreve: “Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face” (1Co 13.12).

Ver Deus face a face é a esperança da igreja cristã. Essa é a esperança do povo de Deus (Ap 21.3;22.4). A cada culto somos convidados a entrar, sem medo, não com as nossas “roupas”, mas com a justiça de Cristo, conquistada a nós por meio do seu sangue, e participar desse banquete na sua presença gloriosa e renovar essa esperança em nosso coração. Que visão maravilhosa! Que esperança! Deus nos conceda sempre essa visão impressionante. Amém.

 

 

Sermão para o Domingo da Transfiguração: Salmo 2.6-12; Êxodo 24.8-18; 2Pedro 1.16-21; Mateus 17.1-9

 

 

Pastor Elton Américo

Paróquia Cristo Senhor, Campinas do Sul, RS 

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