O coronavírus e os tempos do fim

A Covid-19 foi prevista pela Bíblia? O coronavírus é um dos sinais do “fim do mundo”? Estamos vivendo tempos “escatológicos”? São estes os últimos dias do planeta Terra e do Universo? Quem sabe, você já andou ouvindo perguntas parecidas com essas. Perguntas assim sugerem que o atual momento que o Brasil e o mundo estão passando evidencia a proximidade do fim de todas as coisas. Afinal, a Bíblia não fala de pragas (“flagelos”) e mortandade como sinais de que o fim do mundo está próximo?

O ensino e a reflexão sobre as coisas do fim não são desconhecidos para quem já leu a Bíblia, nas palavras dos profetas, de Jesus e dos apóstolos. A Escritura fala bastante sobre as coisas do fim. Há toda uma área nos estudos teológicos que se dedica a estudar este tema. Chama-se “Escatologia” que, literalmente, significa: o estudo das últimas coisas.

São estes os últimos dias do planeta Terra e do Universo?

Vamos começar lembrando que algumas pessoas usam e abusam da linguagem escatológica em épocas em que acontecem eventos extraordinários ou, se não tão extraordinários, quando o modo de vida sai da normalidade e as pessoas se veem obrigadas a viver de um jeito que não estavam preparadas para viver. E isso não é de hoje. Se você ler o capítulo 24 do evangelho conforme Mateus (ou seus textos “paralelos”, de Marcos 13 e Lucas 21), encontrará o Salvador Jesus alertando seus discípulos – e a todos quantos em todas as épocas chegam a ler essas palavras – sobre eventos do fim. Mas, lendo atentamente aqueles textos, veremos que Jesus estava falando realmente de dois assuntos distintos, mas conectados. Jesus alertava sobre um evento que viria a acontecer uns quarenta anos após estas palavras serem ditas: a investida do exército romano e a invasão da cidade de Jerusalém e a destruição do seu templo. A história nos conta que isso aconteceu no ano 70 da era cristã (há quase dois mil anos, portanto). No texto de Mateus 24, Jesus anuncia “sinais” de que haverá algo impressionante (Mt 24.6-14), para o qual seus seguidores deverão estar preparados. Mas o evento da invasão de Jerusalém seria como que um modelo de algo muito maior que viria ainda mais no futuro – a segunda vinda do próprio Jesus (Mt 24.30) e o fim do mundo na forma como o conhecemos.

O alerta de Jesus contra os falsos profetas

Uma coisa importante a lembrar é que, ao trazer este ensino, Jesus não estava querendo levar seus discípulos e os cristãos de todas as épocas ao medo e desespero, mas alertá-los para não que não fossem enganados (Mt 24.4,5). Afinal, ao lado da pura proclamação da Palavra de Deus sempre haverá, infelizmente, os profetas do erro. E estes se aproveitam especialmente de tempos diferentes na história humana, muitas vezes com uma mensagem que mais causa terror, do que ensino e consolo da Palavra de Cristo.

Recentemente vi um vídeo de alguém apresentado como estudioso das Escrituras, que ao longo de vários minutos trouxe o que ele chamou de informações a respeito da situação atual, com a pandemia do coronavírus. Aparentemente eram informações mesmo, ainda que sua fonte fosse muito limitada. Isso me lembrou de um livro que li há muito tempo, escrito na década de 1970 e que até o início deste novo milênio já havia vendido mais de 30 milhões de exemplares. A abordagem era a mesma do vídeo – fatos da história recente que apontariam – segundo estes homens – que estamos vivendo os últimos dias deste mundo. O autor do livro, assim como o pregador, no vídeo, fazia questão de trazer eventos que, segundo ele, iriam comprovar que estamos, sim, vivendo os últimos anos do mundo como o conhecemos.

É importante saber que esta é uma estratégia comum entre aqueles que querem comprovar seus ensinos escatológicos – amontoam uma série de fatos, eventos, estudos, com o propósito de mostrar que o que eles têm a ensinar é a mais pura verdade. Há vários anos tenho lecionado cursos sobre o livro de Apocalipse e sobre o ensino da escatologia (dois assuntos com alguns temas comuns, mas também com aspectos próprios, é bom que se diga!). Tenho alertado muito meus alunos contra este tipo de abordagem especulativa, que procura ler a Bíblia a partir dos eventos atuais; na prática, este tipo de leitura leva para dentro da Bíblia aquilo que se está presenciando na atualidade. É um tipo de “ver para crer”! É sempre bom lembrar: Jesus já alertou seus discípulos sobre os falsos profetas, que se aproveitam de eventos que fogem à normalidade, para trazerem seus ensinos errados.

A relevância das Escrituras

E aqui vem um alerta importante: é preciso cuidar para não fazermos da Bíblia uma mensagem relevante com a nossa história atual, só por ela antever, há muitos séculos, os eventos que acontecem especificamente em nossa época. Afinal, se isso for assim, que relevância teria a Escritura para milhões de cristãos que viveram nos séculos passados? Alguém que viveu na época da gripe espanhola ou das guerras mundiais teria muito argumento para falar da proximidade do fim do mundo! O curioso é que estes profetas do fim sempre acham argumento para demonstrar que na época em que eles estão no mundo é que tudo acontecerá. Parece que, mesmo sem reconhecer abertamente, eles se sentem no centro e no ápice da história humana. O livro que mencionei acima – escrito nos anos setenta – anunciava com muita certeza eventos que deveriam acontecer nesta geração, ou seja, na geração da fundação do estado de Israel, ocorrida em 1948. E isso porque numa certa linha teológica muito popular nos dias de hoje (o chamado “Dispensacionalismo), aquele evento político da criação do estado de Israel – evento político, não teológico – seria a marca de que o fim estava próximo. É preciso lembrar que o “Israel” de hoje não é mais o povo de Deus, como era no Antigo Testamento. Hoje o povo de Deus é a igreja, unida a Cristo pelo batismo. O autor do livro que mencionei se enganou redondamente – os fatos comprovaram seu erro – mas você acha que ele pediu perdão aos seus leitores? Pelo contrário, continuou escrevendo e vendendo livros! Mais recentemente, uma série popular de livros (alguns deles virando filmes) também tem abordado o mesmo assunto, com o sugestivo título, “Deixados para trás”.

Uma coisa em comum tanto no livro da década de setenta, como no vídeo feito este ano e na série “Deixados para trás”, me chamou a atenção: os escritores e o palestrante usam uma palavra que se tornou popular entre estes “profetas do fim” atuais. Eles dizem que está sendo montado o “quebra-cabeças” da história humana e do seu fim! Para eles, é isto que representa a profecia bíblica – um quebra-cabeças que a gente deve desvendar. Que pobreza de maneira de ler a Bíblia! Quem leu (sofrendo, é claro) Hal Lindsay, no final dos anos 70, deve ter se impressionado muito com as “profecias” deste homem sobre como o fim se daria. Fazia muito sentido para quem observasse os eventos políticos do mundo na época. Hoje ficou evidente que ele errou feio nas predições; mas quanta gente simples e querida este escritor enganou?!

Tudo isso nos faz voltar às palavras de nosso Amado Salvador: “Tenham cuidado para que ninguém os engane” (Mt 24.4). Ao nos ensinar sobre as coisas do fim, nosso Senhor não queria trazer terror para os que nele creem, nem dar elementos para que se calculasse quando as coisas do fim aconteceriam. Jesus mesmo alertou: “Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade” (At 1.7). Por meio dos sinais, ele nos alerta para que estejamos vigilantes sempre (Mt 24.42), e iso por meio da fé nele. E que aproveitemos este tempo da sua graça para anunciar o evangelho da salvação (Mt 24.14).

O coronavírus é um sinal dos tempos do fim?

Agora, dito isso, podemos dizer que o coronavírus e a doença por ele causada é um sinal do fim? Para responder a essa pergunta, temos de voltar mais no tempo. Desde que Adão e Eva caíram em pecado e, com eles, todas pessoas deste mundo (com exceção de Jesus, é claro), o pecado deixou suas marcas na vida de todas as criaturas, mesmo da criação como um todo. O apóstolo Paulo chega a dizer que a criação tem uma expectativa pelo tempo da volta de Cristo, quando ela será libertada do “cativeiro da corrupção” (Rm 8.21).

Isso significa que no tempo que vivemos, entre a queda em pecado registrada em Gênesis 3 e a vinda futura de Jesus, a criação de Deus (o que por vezes é chamada de “natureza”) sofre as marcas do pecado humano. Terremotos, fome, guerras (Mt 24.7) são alguns destes sinais, de que a criação sofre com os efeitos do pecado. São alguns dos sinais de que não podemos nos apegar às coisas que aí estão, mas saber que Deus irá criar novos céus e nova terra (Ap 21), onde habitará perfeita justiça (2Pe 3.13). Assim, cada guerra, cada desastre natural, cada pandemia – não somente a do coronavírus – marca o fato de que esta criação está doente, por assim dizer, e se encaminha para um fim, ou melhor, para o grandioso ato de Deus de fazer uma nova criação, onde jamais entrará mal nenhum.

Como, então, devemos nos postar diante da situação atual, com a terrível pandemia que assola todo o mundo? Primeiramente, continuar na certeza que já nos foi dada no nosso batismo: pertencemos ao Senhor dos céus e da terra; por ele somos cuidados e preservados. Com ele vivemos já agora pela fé e um dia o veremos face a face. Se a morte vier, sabemos que ele, em Cristo, venceu a morte. Na ressurreição do Salvador temos a garantia de nossa futura ressurreição.

O que mais precisamos fazer neste tempo?

Ora, cuidar daquilo que Deus nos deu neste mundo – nossa saúde, nossa família e todos quantos Deus coloca em nosso caminho. Por isso é um tempo muito próprio para ter os devidos cuidados com a saúde, nossa e de todos quantos nos rodeiam. É tempo de amar o próximo como sempre devemos amar, como Cristo nos amou e nos ama. É tempo de orar pelas autoridades, pelos serviços de saúde, de segurança e por todos quantos precisam continuar nas suas atividades para o bem da sociedade. É tempo de dizer ao mundo em alto e bom tom: nosso Salvador vive e reina, não só nos momentos bons e alegres, mas nas adversidades e provações.

E quanto à vinda futura de Jesus, o que podemos dizer?

Que ela é certa, que só Deus sabe quando será, e que para nós não é motivo de terror ou insegurança, mas de certeza de que viveremos e estaremos com ele na eternidade. É isso que aguardamos e nisso confiamos.

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