O século 21: Adolescentes ansiosos e pais saudosos

O século 21 está proporcionando o embate entre duas gerações: uma pede por uma vida mais desconectada e próxima do real; já a outra quer autonomia e espaço através de um celular ou computador.

Artur Charczuk
[email protected]
pastor e psicanalista em São Leopoldo, RS

É característico desta fase, a adolescência, a busca por novas amizades, o despertar do interesse pelo sexo oposto, interesses mutáveis, tempo de transição de um espaço na família para um lugar na sociedade; um período de muita ansiedade, receio, conflito, etc. Mudanças intensas acontecem na vida da pessoa no decurso na adolescência. Os conflitos internos se somam às modificações físicas, hormonais e cerebrais, e o adolescente pode sentir dificuldades maiores para manusear ou conversar sobre essas circunstâncias. Fatores externos auxiliam para a maior vulnerabilidade aos anseios emocionais. Com isso, alguns adolescentes ficam mais agressivos, enquanto outros podem se expressar mais isolados ou tristes.

Muitos pais ficam confusos sobre a origem de certas atitudes, sem saber se elas são esperadas ou não. Todas essas mudanças, inerentes aos adolescentes, provocam certos sentimentos nos pais, que, presentemente, demonstram estar com problemas para cuidar da educação dos filhos no que se refere aos limites. Educar em um mundo digital, no qual adolescentes interagem por meio das mídias sociais e têm acesso irrestrito à informação, também tem sido um tanto desafiador. Afinal de contas, estamos no século 21.

A ADOLESCÊNCIA DO SÉCULO 21

Nos últimos anos, o mundo tem passado por grandes modificações, tanto no ambiente tecnológico quanto no ramo dos relacionamentos interpessoais, bem como na maneira como as pessoas tratam com as informações e seu desenvolvimento. A marca da realidade atual é o acesso fácil e rápido à informação. A sociedade está perpassada por uma revolução, tanto que os valores sociais, os papéis profissionais, a família, estão sendo debatidos, uma vez que o ser humano está na era da pluralidade de ideias, dos pensamentos, das imagens, entre outras coisas. E o adolescente, com seus desejos e conflitos internos, está bem no olho do furacão da indústria cultural de consumo; isto é, a estrutura social, além de plural, tem sua base no capitalismo, percebe o consumismo como algo determinante para a posição social e o bem-estar da pessoa. Consequentemente, a identidade do indivíduo fica atrelada ao que ele possui, aos seus bens materiais. É mais ou menos assim: se o sujeito tem determinada marca, produto ou imagem, ele é aceito; caso não possua, não é aceito.

A adolescência costuma ser uma etapa em que o jovem busca por aceitação, identificação e validação. E como estamos em tempos estereotipados, trilhar o período da adolescência se torna algo tortuoso. E o que resta são jovens ansiosos, com baixa autoestima e somatizações plurifacetadas.

PAIS SAUDOSOS

O século 21 está proporcionando o embate entre duas gerações: uma pede por uma vida mais desconectada e próxima do real; já a outra quer autonomia e espaço através de um celular ou computador. Sim, a adolescência contemporânea está refletida numa tela de uma determinada tecnologia. A manifestação do afeto foi transformada num emoji sorrindo e enviado do último quarto do corredor da casa. Os pais sentem falta da relação vívida e familiar. Tudo está tão pragmático e efêmero; entretanto, atitudes simples podem trazer resultados: escutar os anseios dos filhos é muito saudável quando eles compartilham sentimentos; cultivar hábitos familiares: realizar as refeições juntos, organizar passeios, ir ao culto em família e, caso seja necessário, realizar um acompanhamento psicológico. Em tempos tão complexos e virtuais, nada melhor do que a simplicidade do real.

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