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O desafio do cristão na universidade

Por que jovens se afastam da igreja ao ingressarem no mundo acadêmico?

“Ensine a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Provérbios 22.6 – NAA). O versículo-chave da Escola Dominical sempre me intrigou. De fato, é uma passagem bíblica que remete à educação, e sabemos que as crianças têm mais facilidade de aprender e uma memória excepcional, afinal estão iniciando sua formação. No entanto, se levamos frequentemente as crianças à Escola Dominical, por que muitas delas (talvez a maioria) se afastam da igreja depois que fazem a confirmação de sua fé batismal? Esta é a realidade de muitas das nossas igrejas!

Há alguns anos, percebemos o esvaziamento dos jovens nas atividades congregacionais, e a IELB, como um todo, tem se empenhado e mergulhado no universo juvenil a fim de entender as razões e buscar resgatar e acolher nossos jovens novamente à família na fé. Uma das iniciativas do Departamento de Educação Cristã da IELB é a formação de liderança para apoio aos jovens. O projeto, iniciado este ano, prevê cinco encontros online para pastores e lideranças com o objetivo de estudar o livro#Jovem na Igreja (disponível na Editora Concórdia). Interessados em conhecer mais sobre o projeto podem entrar no grupo de WhatsApp Apoio #Jovem na Igreja, pelo link: https://ielb.info/whats-apoio-jovem.  

Para isso, precisamos, primeiramente, compreender quem são e o que querem os jovens cristãos da atualidade. Especialistas têm afirmado que hoje, em nossa cultura ocidental, o período da adolescência está mais estendido. Embora definições oficiais, como da Organização Mundial da Saúde (OMS), indiquem a faixa etária de 10 a 19 anos ou de 12 a 18 (no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), no Brasil, é comum que as mudanças que ocorrem nesse período acompanhem o jovem até que ele tenha uma maior estabilidade na vida adulta (o que, em geral, acontece entre os 25 e 30 anos).

A adolescência é um período de muitas transformações. A psicóloga e pesquisadora Miriam Raquel Strelhow explica que, além das mudanças físicas que ocorrem, especialmente no período que chamamos de puberdade, os adolescentes passam por mudanças grandes nas percepções que eles têm de si mesmos, dos outros e do mundo. Isso acontece em função do amadurecimento físico e cognitivo, com um papel importante do cérebro que continua a se desenvolver até aproximadamente os 25 anos, mas também das vivências sociais.

“Já na adolescência, aumentam as responsabilidades, a autonomia, mudam e se fortalecem as amizades, vivenciam novas experiências. Assim, o adolescente vai fortalecendo sua identidade, a forma que se percebe, incluindo valores, crenças e metas que lhe parecem importantes para sua vida. O desenvolvimento da fé religiosa também acompanha esse processo, por isso é comum que haja questionamentos relacionados à religião, curiosidade em relação a outras doutrinas, e até desejo de conhecer outras religiões”, observa.

Os jovens ampliam os contextos no quais convivem, seja através de sua inserção no mundo trabalho ou com a entrada em cursos técnicos ou universitários.  Dessa forma, também se deparam com pessoas que pensam diferente, que apresentam outras formas de viver, inclusive em relação a questões religiosas. Raquel destaca que muitos se aproximam de outras áreas de conhecimentos, como a Filosofia e a Ciência, e podem ter dificuldade em conciliar diferentes explicações do funcionamento do mundo com suas próprias crenças religiosas e visão de mundo.

“Como resultado de todo esse processo, alguns jovens se afastam do convívio na instituição religiosa, alguns passam a questionar os ensinamentos doutrinários, alguns mudam de religião, ou até mesmo passam a se definir como não crentes. Por outro lado, muitos adolescentes demonstram um maior engajamento com seu grupo religioso, especialmente quando se sentem parte desse grupo, possuem amizades com outros adolescentes, se envolvem em atividades em que podem exercer habilidades e interesses, percebem coerência entre o que escutam e veem acontecendo no grupo, e encontram adultos com os quais conseguem estabelecer relações positivas”, considera.  

Para Raquel, pesquisas sobre desenvolvimento religioso indicam que as experiências prévias, vividas na infância são importantes e podem dar base para essas definições. “Mas as vivências e o direcionamento que vão acontecendo no presente, ao longo da adolescência e juventude também são fundamentais. Quando o jovem encontra acolhimento e tem possibilidade de ser escutado em suas dúvidas, angústias e curiosidades isso o fortalece, e permite um desenvolvimento mais saudável e integrado”, conclui.  

De fato! Voltando à reflexão inicial do texto, sobre minha desconfiança com o versículo-chave da Escola Dominical, o motivo também é porque sou testemunha disso. Mesmo sendo “luterana de berço”, ter frequentado a Escola Dominical, ter confirmado minha fé em Cristo, ter participado da União Juvenil, me afastei da igreja e de todas as atividades da congregação durante o período acadêmico e além dele (entre os 19 e 28 anos), retornando à família na fé quase 10 anos depois, por necessidade de me aproximar de Deus novamente. Mas o que me manteve vinculada à congregação foi o acolhimento, quando o pastor me convidou para ajudá-lo na comunicação, com o blog e o informativo, já que era minha área profissional. E, alguns anos depois, outro convite inesperado para auxiliar na Escola Dominical, o que despertou meu interesse e dons que nem imaginava possuir. Portanto, eu digo, por experiência própria, a criança educada na Palavra de Deus pode se desviar do caminho, sim (na verdade, qualquer um pode). Mas que ela consiga retornar, pois Deus sempre vai buscar e resgatar seus filhos; ele atua pela Palavra e pelos sacramentos, seja usando outras pessoas ou meios como seus instrumentos. Por isso, é tão importante o olhar, o cuidado, o acolhimento, tanto da família como dos irmãos na fé, por esses que estão afastados. Sem cobrança, sem pressão… tudo no tempo de Deus! Ele sabe de todas as coisas!

A minha é uma das histórias que queremos compartilhar sobre diversas situações e experiências nesta fase tão complexa na vida de todo o ser humano (com novas experiências, vivências, relacionamentos, mudanças, expectativas, etc), que, às vezes, acaba afastando o jovem do vínculo da igreja. A ideia é expor os desafios e as oportunidades para não só buscar esses jovens, mas como acolhê-los, cativá-los e mantê-los ativos na igreja.

Afinal, a organização mais antiga da IELB, a Juventude Evangélica Luterana do Brasil (JELB), completa 99 anos no dia 31 de maio, rumo ao centenário: “Esse Deus é o nosso Deus para sempre. Ele nos guiará eternamente” (Salmo 48.14).

ACOMPANHAMENTO DA FAMÍLIA É IMPORTANTE


“Ao adentrar na universidade, nossos jovens luteranos se deparam com inúmeras alterações na rotina de sua vida, que, em alguns casos, imputam até mesmo uma mudança de cidade ou estado e, assim, uma transferência para outra congregação da IELB. Nesse contexto, gostaria de abordar um aspecto que me tem despertado um olhar especial, como membro e atual presidente de uma congregação urbana que, a cada ano, recebe por transferência jovens advindos de vários locais do país para cursar a universidade aqui em Belo Horizonte, MG, e em cidades próximas. Muitos deles frequentam regularmente os cultos e participam de programações como retiros e congressos; porém, alguns deles até chegam a frequentar alguns cultos, mas depois ‘desaparecem’ e, simplesmente, não respondem às tentativas de contato do pastor ou de outro membro. Talvez essa seja a realidade de outras congregações urbanas, entretanto, tenho observado um ‘fenômeno’ interessante que pode ter correlação com tal situação: em muitos casos, os pais dos jovens universitários mantêm um contato constante (até pelo WhatsApp) com o pastor ou com membros amigos (como tenho testemunhado) para saber se seus filhos têm ido aos cultos regularmente e se estão participando de outras atividades. Fica aqui, então, um alerta relevante para todos os pais nessa situação: orem e conversem constantemente com seus filhos ‘universitários distantes’, mas não deixem de acompanhar sua participação nas novas congregações, pois isso faz toda a diferença!”   

Prof. dr. Frederico Reis
Ex-presidente da JELB e do Conselho Diretor da IELB
Professor Titular da UFOP – MG

A EXEMPLO DE JESUS

 “Minha experiência parece ter sido um pouco diferente da maioria dos jovens cristãos. Durante meu tempo de formação, desde a graduação até o doutorado, nunca experimentei uma crise de fé ou conflitos com os fundamentos cristãos que me foram apresentados pela igreja. Mas me parece ter havido uma questão que representa um grande desafio: como comunicar minha fé para pessoas com crenças e visões de mundo tão diferentes das minhas? Esse desafio também incluía outros cristãos, de confissões diferentes da minha, seja porque alguns pareciam relativizar os valores da fé ou porque queriam forçar seus princípios religiosos no momento das aulas. Esse tipo de desafio é árduo para o jovem cristão, talvez por ser muito pouco contemplado pelas lideranças cristãs, pois se a universidade, por seu caráter científico, se mostra reticente com os princípios da igreja, a igreja também não se preocupa em traçar um diálogo honesto e construtivo com o conhecimento que é produzido pela universidade. Como um jovem, lidando com tantos conhecimentos novos, pode combater em favor de sua fé? Escolhi lidar com esse e outros desafios assumindo o mandamento do amor ao próximo e buscando não falar, mas viver como um discípulo de Jesus, conversando com todos, ouvindo e compreendendo, sem nunca deixar clara minha fé e meus princípios.”

Matheus Schmaelter
Doutor em Filosofia pela UERJ
Prof. da UERN/Caicó

VENCENDO AS TENTAÇÕES

 “‘Universidade’ e ‘Deus’ são palavras que podem soar cacofônicas quando colocadas lado a lado, especialmente no contexto das faculdades públicas. O jovem cristão, nesse ambiente, é constantemente tentado. Muitas vezes, com medo de que o enxerguem como “careta”, ele confirma presença em eventos que envergonham o seu Deus. Desse modo, ele pensa que as festas e bebedeiras são muito mais atrativas do que a pacata igreja. Quando o primeiro casal foi tentado a desobedecer a Deus, a Palavra diz que a árvore proibida era “agradável aos olhos”. De fato, muitas vezes, os prazeres do velho homem são atrativos – se não, Jesus não ensinaria a orar pedindo livramento das tentações. Mas, aqui, não quero fazer um apelo para os malefícios do pecado – embora fosse fácil enumerar vários –, simplesmente, quero dizer que, não importa o quão atraente ele possa ser, só existe uma Verdade, e ela está estabelecida em Cristo. Eu tenho visto universitários entregues ao sexo, às drogas e ao que mais você puder imaginar; mas que, quando conheceram Jesus, tiveram sua vida transformada, pois a nova realidade consumiu tudo que era ilusório. A igreja não precisa, nem deve ser um parque de diversões para entreter e segurar o jovem, mas um ambiente de comunhão no qual o Espírito nos leve ao arrependimento, mostre-nos o quanto precisamos do Senhor e, mais ainda, o tanto que somos amados por ele.”

Gustavo Timm Munieweg
Estudante de Medicina

O PAPEL DA IGREJA

“O tempo da vida universitária é um tempo em que o jovem vive de uma forma muito agitada, precisando conciliar amigos, família, trabalho e estudo, quando, por vezes, é tentado a deixar a vida da igreja de lado.

A igreja, reconhecendo a importância dessa fase, enfrenta o desafio de manter esses jovens engajados, oferecendo um espaço de acolhimento, compreensão e crescimento espiritual. Especialmente de ensino, para que por meio do conhecimento bíblico, da vida em comunhão, do estudo e do culto, sua fé seja alimentada e firmada em Jesus.

Para alcançar esse objetivo, é essencial que a igreja promova um ambiente onde os jovens se sintam ouvidos e valorizados, onde suas experiências e dúvidas sejam tratadas com respeito e empatia. O grupo de jovens é um excelente ambiente para pastorear o jovem, porém talvez seja interessante que se promova um ambiente onde possamos trabalhar os dramas e dificuldades dessa fase e estudar mais profundamente a Escritura Sagrada. Penso que esses grupos precisam permitir aos jovens expressar sua fé, bem como suas ansiedades e medos.

Por fim, é crucial que a igreja ofereça orientação e ensino adaptados às necessidades dos jovens, ajudando-os a navegar pelas complexidades da vida moderna com sabedoria e compaixão.”

Pastor Felipe Ermann Euzebio
Conselheiro da JELB e ex-conselheiro da ANUL

Em 2021, a JELB fez uma live no canal CPT no Youtube com jovens luteranos compartilhando suas vivências, desafios e oportunidades no ambiente universitário (assista em https://ielb.info/plantao-jelb).

Referência

STRELHOW, M. R. W.; TORRES, C. M.; ZANGARI, W. Religiosidade e Espiritualidade na Infância e na Adolescência. In: Letícia Oliveira Alminhana; Aline Polzoni; Jovana Giacobo Serra; Beatriz Ferrara Carunchio.. (Org.). Experiências Espirituais e Prática Clínica: O que profissionais da saúde devem saber. V.2.  A diversidade das experiências espirituais: experiências anômalas e saúde mental. Porto Alegre: KDP-Amazon/independently published, 2021, v.2, p.145-176.

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