Consolo em tempos de aflição

Entre as muitas formas como Lutero é apresentado para nós, através de seus escritos, chama a atenção sua linguagem consoladora quando escreve sobre sofrimento e morte. Lutero tem uma boa palavra para dizer aos corações atribulados por tristezas, perseguições e doenças. Entre as cartas, uma muito especial foi escrita a seu grande amigo e defensor perante o papa e o imperador, o Príncipe Frederico, Duque da Saxônia (chamado de Frederico, o Sábio), quando este esteve gravemente enfermo em 1519. Ele foi o criador da Universidade de Wittenberg, onde Lutero foi professor. Homem muito apegado à sua vasta coleção de relíquias sagradas, principalmente ao enfrentar a doença.

Diante de sua enfermidade, Lutero enviou a ele uma carta e o presenteou com um texto, conhecido como as “Catorze consolações”. Na carta ele diz: Não posso fazer de conta que não esteja ouvindo a voz de Cristo clamando do corpo e da carne de Vossa Alteza, dizendo: Eis-me aqui, doente! Tais males como a doença e outros, quem os sofre não somos nós, os cristãos, mas o próprio Cristo. Além do desejo de falar com seu amigo, Lutero via a responsabilidade pastoral de escrever ao príncipe.

Nas consolações, ele desconstrói as ilusões das muitas relíquias e vai construindo a realidade da vida com Deus. As 14 consolações apresentam os males e os bens vindos de Deus, colocados ao redor do ser humano. Ensina Frederico a encarar a morte com a alegria das promessas de Cristo e ser consolado pelo amor e a graça que vêm de Deus.

As consolações que Lutero apresenta a Frederico são também um presente para a humanidade passando por tribulações como a pandemia. Somos convidados pela Escritura a encarar esse mal com o coração confiante e alegre, pois quanto louvor e amor devemos a nosso excelentíssimo Deus em qualquer mal desta vida, porque é apenas uma gota dos males que merecemos. A percepção de Lutero nos lembra que todo o sofrimento desta vida é menor do que o sofrimento que é merecido pelo pecado. Porque Deus “Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui conforme as nossas iniquidades” (Sl 103.10).

Ao mesmo tempo, as promessas de Deus nos enchem de esperança, porque Deus não abandonou os filhos dos seres humanos a tal ponto que não os consolasse com o sentimento de que o mal será removido e que o bem tomará seu lugar. Mesmo que o futuro traga a experiência amarga da morte, é uma grande coisa o fato de a morte, o pior mal para outros, se tornar para nós [cristãos] o maior lucro, o fim do pecado e o começo da vida. A obra de Cristo destruiu a morte e a deixou como uma serpente de bronze, mencionada em João 3. Tirou-lhe o aguilhão, restando apenas um aspecto feio e terrível, mas inofensivo. “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Graças a Deus que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15.55ss).

Diante da grandeza da obra de Cristo, este tempo de pandemia é tempo para louvarmos a Deus pela sua misericórdia e confiarmos naquele que tem poder sobre vida e morte e toda a criação. Nós, que fomos arrastados para dentro de Cristo como diz Lutero, incluídos na família da fé pela água do batismo, encontramos em Cristo a preservação da nossa vida para além desta vida terrena. Vivendo nesta realidade divina de Cristo, encontramos força e coragem para os desafios do nosso tempo e somos aquecidos para o amor ao nosso próximo, que olha para nós com os olhos de Cristo, dizendo “eis-me aqui”.

Gabriel Schmidt Sonntag

Pastor

Cariacica, ES

As citações em Itálico são de Lutero, do texto das “catorze consolações”, extraídas do Volume 2, das Obras selecionadas de Lutero, p. 11-47O Salmo é da NAA e o de 1Coríntios é da ARA (como está citada na obra de Lutero em Português)

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