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Quatro evangelhos no Novo Testamento: Por quê?

A tese de que os evangelhos que hoje temos no Novo Testamento só foram aceitos (ou colocados no lugar dos assim chamados evangelhos apócrifos) no Concílio de Niceia, no ano 325 da era cristã, é falsa! Manuscritos gregos dos evangelhos, produzidos por volta do ano 200 depois de Cristo, já trazem os quatro evangelhos que estão em nosso Novo Testamento – e apenas esses quatro

Não é nenhuma novidade dizer que temos, no Novo Testamento, quatro livros que chamamos de “evangelhos”. Temos o evangelho segundo Mateus, o evangelho segundo Marcos, o evangelho segundo Lucas e o evangelho segundo João. Nova ou surpreendente pode ser a pergunta: Por que quatro evangelhos?

Sim, por que quatro, e não seis, oito ou apenas três? Não temos uma resposta para esta pergunta. (Deus o sabe.) Sabemos que, historicamente falando, um dos primeiros a refletir sobre isso foi Irineu de Lião, um teólogo que viveu por volta do ano 150 da era cristã. Parece que, naquela parte do mundo (sul da França), naquele tempo, já se tinha clareza de que os evangelhos eram quatro, e apenas quatro. Irineu disse que isso era tão natural como dizer que há quatro cantos da terra: norte, sul, leste e oeste. Mas Irineu tinha também uma aparente base bíblica para isso. Ele fez referência aos quatro seres vivos que aparecem na visão do trono de Deus, em Apocalipse 4.7. Nessa visão aparece um leão, que, segundo Irineu, seria Mateus; um novilho ou touro, que, segundo ele, seria Marcos; um homem, que seria Lucas; e uma águia, que seria João. Há quem afirme que, de fato, o evangelho de Lucas é mais humano, e que o evangelho de João se assemelha a uma águia, voando mais alto. Agora, dificilmente o texto de Apocalipse 4 está falando sobre os quatro evangelistas, ainda que de forma simbólica.

          Mesmo que não saibamos quando exatamente, na igreja cristã, ficou claro que os evangelhos eram em número de quatro, uma coisa também parece certa: nos primeiros tempos, havia mais candidatos do que vagas. Isso significa que houve pessoas que quiseram incluir no Novo Testamento outros livros a respeito de Jesus, mas a igreja disse “não”. Hoje eles são conhecidos como evangelhos apócrifos. (A “informação” de que os pais da virgem Maria se chamavam Joaquim e Ana vem de um desses evangelhos apócrifos.) Outra coisa líquida e certa é que a igreja já tinha clareza sobre isso muito tempo antes do imperador Constantino, no quarto século da era cristã. É preciso enfatizar isso, porque muitos falsos eruditos pegam carona com autores como Dan Brown, em O Código Da Vinci, e repetem a tese de que os evangelhos que hoje temos no Novo Testamento só foram aceitos (ou colocados no lugar dos assim chamados evangelhos apócrifos) no Concílio de Niceia, no ano 325 da era cristã. Nada poderia ser mais falso! Manuscritos gregos dos evangelhos, produzidos por volta do ano 200 depois de Cristo, já trazem os quatro evangelhos que estão em nosso Novo Testamento – e apenas esses quatro.

          Quatro evangelhos, quatro relatos. Isso dá na vista especialmente quando se chega à história do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus. Acontece que, na parte final do ministério de Jesus, os paralelos entre os quatro Evangelhos se acentuam. Antes dessa parte final, o evangelho segundo João normalmente não traz os mesmos relatos que aparecem nos três primeiros evangelhos. Mas, apesar das semelhanças, existem também diferenças entre as narrativas. Será que isso é um problema? E tem solução?

          Para muitos, essas diferenças entre os evangelhos (apesar das semelhanças) foi e ainda é um problema. No início da era cristã, um dos que lidaram com isso foi Taciano, um teólogo da igreja síria, que viveu por volta do ano 170 da era cristã. Taciano criou o Diatessarão, que era uma harmonização ou combinação dos quatro evangelhos num relato único. (Pouco ou quase nada dessa obra chegou até nós.) Na região da Síria, essa “combinação dos quatro” tomou o lugar dos quatro evangelhos canônicos por um bom período de tempo. Mas, felizmente, mais tarde os quatro evangelhos sem harmonização acabaram ganhando a parada.

          A igreja recebeu quatro evangelhos. A tentação no sentido de harmonizá-los sempre existe. De certa forma, uma das partes mais “fáceis” de harmonizar, especialmente se incluirmos também o evangelho de João, é a história do julgamento de Jesus, seguida de sua morte e sepultamento. A mais antiga edição da Liturgia Luterana (o assim chamado “livro do pastor”) inclui uma harmonização dessas, que, pelo que consta, vem do tempo da Reforma. Nessa harmonização, aparecem, por exemplo, as sete palavras de Cristo na cruz uma após a outra. (Fora da harmonização, elas aparecem em Lc 23.34, Lc 23.43, Jo 19.26, Jo 19.27, Mt 27.46 e Mc 15.34, Jo 19.28, Jo 19.30.). Mas essa harmonização termina com o relato do sepultamento de Jesus. Porque, na verdade, colocar os textos da Páscoa que aparecem nos quatro evangelhos num relato único não é uma tarefa fácil (para não dizer que é praticamente impossível). Quem quiser harmonizar, precisa decidir se o Cristo ressuscitado se manifestou primeiro a um grupo de mulheres, como dizem Mateus, Marcos e Lucas, ou a Maria Madalena, como diz o evangelho de João.

Essa dificuldade parece ser mais uma indicação de que não nos cabe harmonizar os quatro evangelhos. Em vários momentos, temos narrativas um pouco diferentes (veja, por exemplo, a diferença entre Marcos 10.46 – o cego Bartimeu – e Mateus 20.30 – dois cegos), mas não necessariamente contraditórias. Existem tensões, e temos de conviver com elas.

Temos quatro evangelhos no Novo Testamento, e a igreja sempre rejeitou tentativas de fazer deles uma mistura, para que se tivesse apenas um. Na Liturgia, lemos, hoje, os evangelhos separadamente. Neste ano estamos lendo Marcos (com inserções de João). Ano que vem será Lucas (com inserções de João). Depois será a vez de Mateus (com inserções de João). É melhor ter quatro relatos do que um só. Um dia vamos entender a razão das pequenas diferenças entre os evangelhos, se é que vamos nos lembrar de perguntar.

      

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